Sinto falta. Falta de tudo. Sinto falta da Apologia do meu eu, onde residia toda uma descrição, um desabafo real. Sinto falta de me abrir ao mundo daquela forma simples. Tinha um espaço só meu, uma espécie de diário público, onde me ia despindo, e não me refiro à prática concreta das minhas acções, falo de tirar a roupa ao meu ser, da forma que ele é. E apesar da falta que me faz não é por isso que para ele vou voltar. Tento arranjar formas de o substituir, descrevendo situações, inventando histórias, gritando desabafos. Será a mesma coisa?
Não.
Nada é igual a nada. Nada tem o mesmo valor que mais nada. Não existem medidas e pesos para tudo...é difícil compreender-me. É difícil fazer-me sentir de forma a ser totalmente sentido. Se a minha vida fosse como a minha escrita tudo faria mais sentido, tudo teria uma razão de ser. Mas não é.
A realidade é fria?
Não. Mas a maioria julga sentir frieza no realismo. Ainda sonho? Apenas quando durmo. O ser humano deveria ser uma pilha recarregavel. Mas já não é. Deixou de ser. Talvez nunca tenha sido.
Já deram tanto a tão pouco, fitando o vazio quando não conseguiram que quem queriam que vos sentisse vos retribuísse outro diferente pouco.
Na vertiginosa realidade que se abre nesse abismo, nessa tragédia grega, tudo o que podem implorar a Deus é que vos coloque uma pedra no lugar do coração e um icebergue no lugar do cérebro. Faria algum sentido dizer outra coisa qualquer?
Sim. Mas já o disse uma vez: isso mudaria algo?
Ænima, palavra de origem Tooliana, que tem como significado: a lavagem da alma. Morreu o pequeno deus, morreu uma apologia...Prefiro desiludir com a verdade do que iludir com a mentira, e no entanto, aqui estou, a julgar-me fora do alcance da minha própria ambição. É hora de encaixar as peças todas. É altura de observar os vários pontos de vista duma peça completa.
domingo, 10 de outubro de 2010
sábado, 9 de outubro de 2010
A origem (71)
Tudo começou à muito tempo. Eram duas da manhã. Estava sentado a ver televisão...Pânico. Em pormenores que aprendi sozinho, que mais ninguém me conseguiu ensinar, encontrei palavras úteis para aqueles que me rodeiam. Existem momentos na vida que percebemos que somos alguém, momentos em que a nossa mão se estende, além a fronteira da teoria e que de facto somos importantes. São pormenores como disse. A vida é feita deles. E tudo começou nessa noite. Nunca mais fui o mesmo. Tive medo nessa noite, como vários de nós têm durante a sua rotina. Hoje continuo a temer voltar a sentir o que senti. O que mudou em mim? O monstro nasceu...antes tudo era um nome, um título, um chamamento. Depois? Era uma origem, era um acto, era um texto. Nas minhas veias corria sangue, agora corre um sangue que é frio e morno e quente, de forma similar à situação. Não direi nunca que foi a origem do mal nem do bem, foi a origem da pessoa, do monstro que me tornei para sempre. O ser humano deveria absorver a realidade, beber dos acontecimentos que o rodeiam. Eu absorvo ainda mais, eu bebo como se nunca conseguisse matar a sede. Sou feliz como sou? Não sei ao certo. Não me imagino de outra forma. Não deixo que controlem o que bebo, nem que me embebedem. O futuro é incerto. Nada é tido como absoluto, eterno. Sei unicamente que nasci e vivi toda uma vida para chegar a isto, ao que sou agora. Amante levado ao total possível, mas mais frio. Se pudesse aquecia o mundo da mesma forma que o gelava sem pestanejar.
Pedi que me desenhassem um monstro, mas não conseguiram. Procurei em todo o lado e nada me satisfez. Precisarei de colocar uma imagem na minha alma? Carimbar o sentimento? Escrever, falar, agir, tudo ao mesmo tempo? Lamento pensar que progrido sozinho, nesta batalha cinzenta entre o bem e o mal, entre o avanço e o retrocesso...Ceifo o arrependimento da mesma forma que ceifo a saudade. Não desejo a ninguém uma tentativa frustrada de matar uma Hidra,um monstro mitológico que, tendo uma de suas cabeças cortadas, fazia crescer duas no seu lugar...Onde vamos parar?
Pedi que me desenhassem um monstro, mas não conseguiram. Procurei em todo o lado e nada me satisfez. Precisarei de colocar uma imagem na minha alma? Carimbar o sentimento? Escrever, falar, agir, tudo ao mesmo tempo? Lamento pensar que progrido sozinho, nesta batalha cinzenta entre o bem e o mal, entre o avanço e o retrocesso...Ceifo o arrependimento da mesma forma que ceifo a saudade. Não desejo a ninguém uma tentativa frustrada de matar uma Hidra,um monstro mitológico que, tendo uma de suas cabeças cortadas, fazia crescer duas no seu lugar...Onde vamos parar?
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Maynard James Keenan em dueto (72)
Um grito não vale mais que mil palavras, nem dez palavras, nem que palavras, mas também pode valer. É como imagens que valem mais que puro ouro nas nossas mãos; como pequenos pedaços de divino nos nossos olhos, no nosso ombro. Um grito vale o mesmo que o silêncio? Pode valer. Avalio pessoas, avalio situações. Avalio-me como monstro. Tento rotular o mundo todo? Dificilmente. É um grito que lanço em sintonia, durante vinte um segundos...que não aguento gritar. Vale o esforço? Não. Vale a vontade com que se gritou. Num dueto imaginário com a nossa alma e a alma de quem o deu. Um grito profundo que nasce nas trevas do nosso ser. Pela responsabilidade de se viver, de se ter um trabalho, de nos aplicarmos a ele com afinco. Por nos desligarmos da responsabilidade embalados no lodo que nos rodeia. São precisas palavras para descrever o que sentimos? E o que gritamos? E o que ficou por se dizer? E o que se disse a mais sem necessidade ou sentido?
Mas quem está comigo? QUEM ESTÁ COMIGO? GRITO SOZINHO OU GRITO COM MAIS ALGUÉM? QUEM TRANSFORMA ESTAS MALDIÇÕES EM OURO? QUEM APROVEITA ISTO COMIGO?
QUEM?QUEM??!!QUEM?!QUEM ESTÁ COMIGO?
QUEM QUER USAR PARA SEMPRE ESTA COROA? QUEM? ALGUÉM?
Às vezes rastejamos sem saber...nem sabemos bem no quê, porquê.
Esse grito valeu bem mais que muitas palavras. Que imagens. GRITO NAS PAREDES DESTA ALMA NA OUSADIA DE NÃO LAMENTAR COMO OUTROS, TRISTES OUTROS QUE LAMENTAM PARA SEMPRE.
Aprendi pouco, nada ensinei. Em palavras concretas: não estou sozinho. Por outras palavras: quase preferia estar. Em resumo, queria ser outro. Ser outro e não mais desejar.
GRITA
Mas quem está comigo? QUEM ESTÁ COMIGO? GRITO SOZINHO OU GRITO COM MAIS ALGUÉM? QUEM TRANSFORMA ESTAS MALDIÇÕES EM OURO? QUEM APROVEITA ISTO COMIGO?
QUEM?QUEM??!!QUEM?!QUEM ESTÁ COMIGO?
QUEM QUER USAR PARA SEMPRE ESTA COROA? QUEM? ALGUÉM?
Às vezes rastejamos sem saber...nem sabemos bem no quê, porquê.
Esse grito valeu bem mais que muitas palavras. Que imagens. GRITO NAS PAREDES DESTA ALMA NA OUSADIA DE NÃO LAMENTAR COMO OUTROS, TRISTES OUTROS QUE LAMENTAM PARA SEMPRE.
Aprendi pouco, nada ensinei. Em palavras concretas: não estou sozinho. Por outras palavras: quase preferia estar. Em resumo, queria ser outro. Ser outro e não mais desejar.
GRITA
Face me (73)
Sussurraram...falaram. Não chegou. Gritaram-me aos ouvidos! Gritaram sem parar! Veio uma melodia forte para me completar os dias. São dias que passam sem lugar na minha história. Gritos, verdades ditas, verdades explicitas, palavras malditas que me atordoam os sentidos, que me revoltam. Viveste um sonho? Sonhaste-o. A maioria das pessoas acorda-se, sorri do sonho que teve. A maioria sorri do sonho que teve e vive o dia como se nunca o tivesse tido, tenta-o esquecer. Mas tu foste diferente, dizem em voz alta como se o mundo não aguentasse vivo muito mais tempo, tu acordaste com uma só vontade, concretizar o sonho da noite passada! Chove intensamente na rua, e o temporal aproxima-se aos poucos. São carros que parecem pairar no ar, e árvores que querem fugir do chão. As pessoas nunca pareceram tão frágeis...seremos feitos de papel? Somos feitos do quê afinal? Músculo, carne, tecidos sobrepostos, orgãos...? Encaraste o sonho da mesma forma que um recém nascido encara a vida. Com um sorriso de quem não sabe o que verdadeiramente o espera. Ingenuidade? Eu chamo-lhe fraqueza. Realidade? Eu chamo-lhe cobardia.
Continua a gritar até ficares com a voz rouca. Até que este fim do mundo deixe o planeta despido, sem roupa, com toda a culpa aplicada no ser humano. Chegará o dia que cantam; chegará a atitude prática dos gritos que proclamam. Fui longe de mais. O meu erro? Não ter ido mais longe ainda...Que vos sirva de lição; que vos sirva de entretenimento.
Continua a gritar até ficares com a voz rouca. Até que este fim do mundo deixe o planeta despido, sem roupa, com toda a culpa aplicada no ser humano. Chegará o dia que cantam; chegará a atitude prática dos gritos que proclamam. Fui longe de mais. O meu erro? Não ter ido mais longe ainda...Que vos sirva de lição; que vos sirva de entretenimento.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Um milhão de luzes a trespassar um corpo (73)
Não exagero sentir-me bem neste momento, onde estou em pé num local de pessoas sentadas e outras como eu em pé. Reconheço a maioria dos rostos. Mas também não é isso que interessa. Eles estão cá pela mesma razão que eu: felicitar o homem que está naquele pequeno palco rectangular que não deve ter mais de três vezes quatro metros. Ele sorria. Quem me dera estar no lugar dele, mas estava feliz sem qualquer inveja, pois é um amigo meu, e ele merece mais do que ninguém. Todos esperavam de forma atenta o momento em que começaria a falar. Esta era a apresentação do seu livro, o primeiro de alguns esperava ele, e tê-lo escrito era a maior vitória da sua vida. A sala respirava entusiasmo. Conseguia ver, no meio daquela pequena multidão, os seus pais, e a sua irmã. Pressinto que o seu irmão também ali estava, mas não o consegui encontrar. Os seus amigos também lá estavam, e outros familiares mais próximos. Colegas, vizinhos, conhecidos. Estava uma sala satisfatoriamente composta. O meu amigo colocou-se de frente para todos, depois de ouvir abaixado umas últimas palavras do organizador de todo aquele momento. Sorriu para todos, senti-o completamente feliz...E na sua voz, mais alegre do que nervosa, como se já tivesse feito isto mais do que uma vez começou:
Antes de mais quero agradecer a presença de todos aqui. É um enorme prazer partilhar este momento com todos vós. Estou aqui para apresentar algo com o qual sonho há muitos anos! E antes de o fazer quero agradecer a duas pessoas que sempre me apoiaram; sempre, nunca duvidaram que este momento pudesse de facto ser possível, sempre acreditaram em mim, obrigado. Se aqui estou hoje foi em grande parte graças a essa fé na minha escrita. Quero também agradecer a todos os que me leram, criticaram, e de certa forma, à sua maneira: cresceram. E eu cresci. E muito. Tudo o que posso dizer de mais honesto é que existem dois tipos de escrita (e que não importa se é prosa ou poesia): aquela que escrevemos para nós (que pode ou não ser real, verdadeira) e a que escrevemos para os outros. O que espero, é que na que escrevi para mim, outros possam nela encontrar algo de útil, ou de belo, pois nem sempre essas coisas podem estar em sintonia. Em relação ao que escrevi para todos os outros que vos seja especialmente útil, e se possível belo. Quero agradecer aos verdadeiros, aqueles que me aceitaram como monstro, e que no monstro encontraram algo palpável, suficientemente forte para ser agarrado com unhas e dentes e mãos de dedos fortes. Quem me aceitou como sou, e com isso aproveitou o melhor de mim, é a esses que me dedico e é por esses que me tento elevar cada vez mais. Acrescentar ainda, que o mais importante, concretizado este sonho, é chegar a todos os possíveis que puder chegar, e tentar dessa forma fazer alguma diferença. A quem me ama, agradecer a quem me fez companhia na escuridão, a quem ficou comigo, para depois, a seu devido tempo, me ajudar a sair dela. Quem ficou comigo na escuridão...
O meu amigo calou-se. Todos ficaram a olhar para ele. O que se passaria? Eu sabia. Só podia ser uma coisa. Segui os seus olhos. Tinha acabado de entrar uma pessoa na sala. Só podia ser. A cara dele oscilou entre várias feições. E de repente, para quem pensava já ter visto aquele homem na felicidade mais pura, depressa se apercebeu afinal que aquela felicidade era muito pequena...Senti-o completamente feliz. Já o tinha visto assim outrora. Acabou de falar, sem tirar os olhos de quem entrara, e passado uns minutos retirou-se. Todos aplaudiram. Naquela sala ficaram todos os que lá estavam menos duas pessoas.
Antes de mais quero agradecer a presença de todos aqui. É um enorme prazer partilhar este momento com todos vós. Estou aqui para apresentar algo com o qual sonho há muitos anos! E antes de o fazer quero agradecer a duas pessoas que sempre me apoiaram; sempre, nunca duvidaram que este momento pudesse de facto ser possível, sempre acreditaram em mim, obrigado. Se aqui estou hoje foi em grande parte graças a essa fé na minha escrita. Quero também agradecer a todos os que me leram, criticaram, e de certa forma, à sua maneira: cresceram. E eu cresci. E muito. Tudo o que posso dizer de mais honesto é que existem dois tipos de escrita (e que não importa se é prosa ou poesia): aquela que escrevemos para nós (que pode ou não ser real, verdadeira) e a que escrevemos para os outros. O que espero, é que na que escrevi para mim, outros possam nela encontrar algo de útil, ou de belo, pois nem sempre essas coisas podem estar em sintonia. Em relação ao que escrevi para todos os outros que vos seja especialmente útil, e se possível belo. Quero agradecer aos verdadeiros, aqueles que me aceitaram como monstro, e que no monstro encontraram algo palpável, suficientemente forte para ser agarrado com unhas e dentes e mãos de dedos fortes. Quem me aceitou como sou, e com isso aproveitou o melhor de mim, é a esses que me dedico e é por esses que me tento elevar cada vez mais. Acrescentar ainda, que o mais importante, concretizado este sonho, é chegar a todos os possíveis que puder chegar, e tentar dessa forma fazer alguma diferença. A quem me ama, agradecer a quem me fez companhia na escuridão, a quem ficou comigo, para depois, a seu devido tempo, me ajudar a sair dela. Quem ficou comigo na escuridão...
O meu amigo calou-se. Todos ficaram a olhar para ele. O que se passaria? Eu sabia. Só podia ser uma coisa. Segui os seus olhos. Tinha acabado de entrar uma pessoa na sala. Só podia ser. A cara dele oscilou entre várias feições. E de repente, para quem pensava já ter visto aquele homem na felicidade mais pura, depressa se apercebeu afinal que aquela felicidade era muito pequena...Senti-o completamente feliz. Já o tinha visto assim outrora. Acabou de falar, sem tirar os olhos de quem entrara, e passado uns minutos retirou-se. Todos aplaudiram. Naquela sala ficaram todos os que lá estavam menos duas pessoas.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Na varanda do Céu (74)
Não conseguirei imaginar lugar mais impressionante. E é engraçado pensar nestas coisas do ponto de vista de qualquer outro ser humano ou mesmo monstro. Pensar que esse lugar impressionante não impressionaria mais ninguém, ou muito poucos, porque muita da magia que aplicamos a um lugar depende só de nós, e a sua importância e beleza deriva de algo que está dentro do nosso ser, chamem-lhe coração, ou alma, ou mesmo razão. Por isso não posso transmitir, na totalidade do sentimento, aquilo que senti. Será tudo um esboço muito leve, quase imperceptível, de uma realidade difusa, de um sonho que se torna mentira, névoa, recordação. E mesmo que conseguisse transmitir este lugar, com toda a clareza, que sentiriam todos vós? Nada, ou com alguma sorte, alguma melancolia sorridente que nem sequer é vossa.
A vista poderia, a outros olhos, parecer tediosa, prédios de quatro ou cinco andares, não me recordo com clareza, e uma pequena rua por onde passam carros apenas de quem lá vive, com pequenos espaços para estacionamento; algum verde e um sol que se escapa por entre os prédios. E o sol sorria-me, talvez como nunca me sorriu antes, e aquecia-me os braços nus. Mesmo não sendo minhas, limpei as beatas do chão. Aquele chão era demasiado belo e puro para estar sujo com algo tão estúpido. E eu fumava, dois cigarros pela sede que faltava saciar. Mas a vontade não era ficar ali por muito mais tempo. Não. Mas o tempo que ali passei, em pé a fumar, a contemplar toda a calma do mundo, toda a harmonia do mundo, como se por momentos não existissem guerras, nem morte, nem doenças, nem pobreza...eu era o centro do mundo, eu era um ser em paz e em sintonia com a felicidade. Algumas pessoas dizem que o frio é psicológico. Algo que é contrário à exacta Ciência. Ao contrário do que possa parecer é com ela que concordo, no entanto, ali estava eu, de boxers e meias, e uma long-shirt fina e arregaçada, numa manhã de menos de oito graus, sem frio.
Naquela varanda, uma varanda única, onde o Céu regia todas as leias do Homem e do Divino, eu estava bem. Na varanda do Céu eu fumei sem a fome de um fumador, e respirei como só um homem livre na sua felicidade pode respirar.
A vista poderia, a outros olhos, parecer tediosa, prédios de quatro ou cinco andares, não me recordo com clareza, e uma pequena rua por onde passam carros apenas de quem lá vive, com pequenos espaços para estacionamento; algum verde e um sol que se escapa por entre os prédios. E o sol sorria-me, talvez como nunca me sorriu antes, e aquecia-me os braços nus. Mesmo não sendo minhas, limpei as beatas do chão. Aquele chão era demasiado belo e puro para estar sujo com algo tão estúpido. E eu fumava, dois cigarros pela sede que faltava saciar. Mas a vontade não era ficar ali por muito mais tempo. Não. Mas o tempo que ali passei, em pé a fumar, a contemplar toda a calma do mundo, toda a harmonia do mundo, como se por momentos não existissem guerras, nem morte, nem doenças, nem pobreza...eu era o centro do mundo, eu era um ser em paz e em sintonia com a felicidade. Algumas pessoas dizem que o frio é psicológico. Algo que é contrário à exacta Ciência. Ao contrário do que possa parecer é com ela que concordo, no entanto, ali estava eu, de boxers e meias, e uma long-shirt fina e arregaçada, numa manhã de menos de oito graus, sem frio.
Naquela varanda, uma varanda única, onde o Céu regia todas as leias do Homem e do Divino, eu estava bem. Na varanda do Céu eu fumei sem a fome de um fumador, e respirei como só um homem livre na sua felicidade pode respirar.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
A peça que poderia faltar mas que sempre aqui esteve (75)
Demorei algum tempo a descobrir isto. E verdade seja escrita que muito procurei eu por este momento. Sabe-o Deus e sabem outras pessoas. Foi uma luta incessante, desgastante, e apesar de agora ter por um lado terminado, dado que descobri por fim a peça que pensava faltar, a realidade é que falta o mais difícil. O ser humano gosta de dar lições, injectar palestras. Não digo que as faça mal, ou apenas por fazer. A realidade é outra. Falar é simples. Fazer? Não é complicado, mas é mais complicado. Na maioria do tempo que gasto a viver, gasto-o ligeiramente revoltado, frustrado...abismado talvez. Não sei definir ao certo. Sei que tenho cometido erros. Alguns grotescos, outros mínimos. Mas também não é por isso que festejo esta descoberta. A minha descoberta teria muito mais valor se fosse sentida por pessoas que sentem da mesma maneira que eu. E essa mesma descoberta tem tanto valor, e chego a esta conclusão com toda a humildade possível, por várias razões, como outra descoberta qualquer. Não vivo em busca da receita concreta e infalível da felicidade. Até porque nesse assunto encontramos outras sub-ideias. "Está dentro de nós"; "É destino", seja lá o que tudo isso for. Não, não é isso. É perceber que estou um passo mais próximo de alguma coisa. Faltou-me alguma peça nos passos que dei? Serão algumas peças mais essenciais que outras? Queria dizer que sim, garantir que sim...Eu tentei mostrar isso a muita gente...Com gestos, palavras, teorias, razões...sonhos. Consegui trazer pesadelos quando apenas cria mostrar uma realidade melhor. Então de que me serve absorver esta peça? A razão humana esclarece-me de forma fria: as peças têm todas a mesma importância. Que seja. Esta frieza já me magoou mais. Já me magoou, já me iludiu, já me deixou dormente...e nas trevas escuras vagueei. Agora, tudo o que sei é que encontro na vossa verdade fria um pequeno aconchego, encontro uma razão de esculpir uma armadura capaz de me manter forte o suficiente para prolongar a minha loucura de ser como sou, sem medos, e de me manter fora do alcance de quem está onde não deveria estar. Por isso, com um sorriso simples mas não forçado agradeço a vossa franqueza...a vossa frieza, a vossa verdade, a vossa ideia geral da realidade...Graças a todos vós, graças ao meu Deus.
E reformulo toda a minha existência numa peça que julguei perdida. Sei que esta peça me fez falta...e duvido que a tenha encontrado para sempre. E duvido que a consiga levar a todos, quando a mim mesmo é complicado levar, entender completamente. Dizem-me com uma quase felicidade que os círculos perfeitos não existem...e que a perfeição é um mito...Noutras circunstâncias talvez tenha concordado com todos vós. E lutei contra o que pensei estar errado...longe de mim para sempre. Porque lutei tanto? Pela mesma razão que o Homem se levanta todos os dias...Se conseguirem amar os defeitos do outro, segura-los como se fossem qualidades, e aguentar outros pequenos e grandes fardos, lutando e amando de forma a que tudo consiga ter o rumo pretendido, valorizando o bom e desvalorizando o mau...então, caros leitores, cara alma,
não sentirão nada mais (e é o tudo) que um círculo perfeito nas vossas mãos.
E reformulo toda a minha existência numa peça que julguei perdida. Sei que esta peça me fez falta...e duvido que a tenha encontrado para sempre. E duvido que a consiga levar a todos, quando a mim mesmo é complicado levar, entender completamente. Dizem-me com uma quase felicidade que os círculos perfeitos não existem...e que a perfeição é um mito...Noutras circunstâncias talvez tenha concordado com todos vós. E lutei contra o que pensei estar errado...longe de mim para sempre. Porque lutei tanto? Pela mesma razão que o Homem se levanta todos os dias...Se conseguirem amar os defeitos do outro, segura-los como se fossem qualidades, e aguentar outros pequenos e grandes fardos, lutando e amando de forma a que tudo consiga ter o rumo pretendido, valorizando o bom e desvalorizando o mau...então, caros leitores, cara alma,
não sentirão nada mais (e é o tudo) que um círculo perfeito nas vossas mãos.
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