quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um milhão de luzes a trespassar um corpo (73)

Não exagero sentir-me bem neste momento, onde estou em pé num local de pessoas sentadas e outras como eu em pé. Reconheço a maioria dos rostos. Mas também não é isso que interessa. Eles estão cá pela mesma razão que eu: felicitar o homem que está naquele pequeno palco rectangular que não deve ter mais de três vezes quatro metros. Ele sorria. Quem me dera estar no lugar dele, mas estava feliz sem qualquer inveja, pois é um amigo meu, e ele merece mais do que ninguém. Todos esperavam de forma atenta o momento em que começaria a falar. Esta era a apresentação do seu livro, o primeiro de alguns esperava ele, e tê-lo escrito era a maior vitória da sua vida. A sala respirava entusiasmo. Conseguia ver, no meio daquela pequena multidão, os seus pais, e a sua irmã. Pressinto que o seu irmão também ali estava, mas não o consegui encontrar. Os seus amigos também lá estavam, e outros familiares mais próximos. Colegas, vizinhos, conhecidos. Estava uma sala satisfatoriamente composta. O meu amigo colocou-se de frente para todos, depois de ouvir abaixado umas últimas palavras do organizador de todo aquele momento. Sorriu para todos, senti-o completamente feliz...E na sua voz, mais alegre do que nervosa, como se já tivesse feito isto mais do que uma vez começou:
Antes de mais quero agradecer a presença de todos aqui. É um enorme prazer partilhar este momento com todos vós. Estou aqui para apresentar algo com o qual sonho há muitos anos! E antes de o fazer quero agradecer a duas pessoas que sempre me apoiaram; sempre, nunca duvidaram que este momento pudesse de facto ser possível, sempre acreditaram em mim, obrigado. Se aqui estou hoje foi em grande parte graças a essa fé na minha escrita. Quero também agradecer a todos os que me leram, criticaram, e de certa forma, à sua maneira: cresceram. E eu cresci. E muito. Tudo o que posso dizer de mais honesto é que existem dois tipos de escrita (e que não importa se é prosa ou poesia): aquela que escrevemos para nós (que pode ou não ser real, verdadeira) e a que escrevemos para os outros. O que espero, é que na que escrevi para mim, outros possam nela encontrar algo de útil, ou de belo, pois nem sempre essas coisas podem estar em sintonia. Em relação ao que escrevi para todos os outros que vos seja especialmente útil, e se possível belo. Quero agradecer aos verdadeiros, aqueles que me aceitaram como monstro, e que no monstro encontraram algo palpável, suficientemente forte para ser agarrado com unhas e dentes e mãos de dedos fortes. Quem me aceitou como sou, e com isso aproveitou o melhor de mim, é a esses que me dedico e é por esses que me tento elevar cada vez mais. Acrescentar ainda, que o mais importante, concretizado este sonho, é chegar a todos os possíveis que puder chegar, e tentar dessa forma fazer alguma diferença. A quem me ama, agradecer a quem me fez companhia na escuridão, a quem ficou comigo, para depois, a seu devido tempo, me ajudar a sair dela. Quem ficou comigo na escuridão...
O meu amigo calou-se. Todos ficaram a olhar para ele. O que se passaria? Eu sabia. Só podia ser uma coisa. Segui os seus olhos. Tinha acabado de entrar uma pessoa na sala. Só podia ser. A cara dele oscilou entre várias feições. E de repente, para quem pensava já ter visto aquele homem na felicidade mais pura, depressa se apercebeu afinal que aquela felicidade era muito pequena...Senti-o completamente feliz. Já o tinha visto assim outrora. Acabou de falar, sem tirar os olhos de quem entrara, e passado uns minutos retirou-se. Todos aplaudiram. Naquela sala ficaram todos os que lá estavam menos duas pessoas.

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