domingo, 10 de outubro de 2010

Falta (70)

Sinto falta. Falta de tudo. Sinto falta da Apologia do meu eu, onde residia toda uma descrição, um desabafo real. Sinto falta de me abrir ao mundo daquela forma simples. Tinha um espaço só meu, uma espécie de diário público, onde me ia despindo, e não me refiro à prática concreta das minhas acções, falo de tirar a roupa ao meu ser, da forma que ele é. E apesar da falta que me faz não é por isso que para ele vou voltar. Tento arranjar formas de o substituir, descrevendo situações, inventando histórias, gritando desabafos. Será a mesma coisa?
Não.
Nada é igual a nada. Nada tem o mesmo valor que mais nada. Não existem medidas e pesos para tudo...é difícil compreender-me. É difícil fazer-me sentir de forma a ser totalmente sentido. Se a minha vida fosse como a minha escrita tudo faria mais sentido, tudo teria uma razão de ser. Mas não é.
A realidade é fria?
Não. Mas a maioria julga sentir frieza no realismo. Ainda sonho? Apenas quando durmo. O ser humano deveria ser uma pilha recarregavel. Mas já não é. Deixou de ser. Talvez nunca tenha sido.
Já deram tanto a tão pouco, fitando o vazio quando não conseguiram que quem queriam que vos sentisse vos retribuísse outro diferente pouco.
Na vertiginosa realidade que se abre nesse abismo, nessa tragédia grega, tudo o que podem implorar a Deus é que vos coloque uma pedra no lugar do coração e um icebergue no lugar do cérebro. Faria algum sentido dizer outra coisa qualquer?
Sim. Mas já o disse uma vez: isso mudaria algo?

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