Acordo, estende-se o dia à minha frente. Aproxima-se o Outono, a chuva, o frio, o vento; o Inverno. Darei suficientes graças por estar vivo? Às vezes sim, em situações pontuais. Nas arestas imensas que me falta limar até me tornar num monstro mais perfeito, ainda me falta dar valor à saúde sem ser apenas quando me encontro na doença; ter fé nos momentos todos e não só quando preciso de algo mais; dar valor ao que tenho sem ser por observar à minha volta quem está pior.
Em algumas coisas estou bem melhor que muitos. Não preciso de perder alguém para lhe dar o devido valor. Disso já me fartei. Engolir em seco ou secar lágrimas depois de nada mais haver a fazer já não me chega. Disso já me fartei. Se nem na morte temos ainda a certeza de ser uma despedida para sempre para quê forçar outras despedidas? Coloco músicas a tocar para realçar a exclusividade do momento; desde músicas grosseiras de guitarra e bateria grotescas, onde viajo sem sair do sitio, a músicas épicas. Desvalorizo e valorizo a raiva. Desvalorizo e valorizo o ódio. E antes que possa agarrar algo mais que me foge pelos dedos...desligo-me. Ou sou desligado. A essência é a mesma, a única coisa que muda é a culpa, se existir. Para a maioria basta o chamado sentimento. Eu não sou a maioria. Portanto, ou estou longe de sentir a profundidade do que já sentiram ou sentem, ou estão vós um pedaço enorme atrás de mim.
E vou-me perdendo nas razões que me movem as pernas, perdido por voltar a pensar que sou como todos os outros em todos os pormenores. Até me podem ir tentando provar que não sou; mas nunca será a mesma coisa. Se me pudesse acordar enquanto estou a dormir faria-o sem hesitar. Aguardo pelo estalar de dedos que me desperta.
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